Muitas vezes, muitas coisas que acontecem em nosso dia-a-dia sequer percebemos. Nem por isso elas deixam de acontecer. E mesmo acontecendo, não percebemos. Segundo a psicologia, nosso subconsciente capta os impulsos e acontecimentos, mas nem tudo cai para o processamento da consciência.
Da interpretação de João Ubaldo Ribeiro, em seu livro fantástico sobre a luxúria, intitulado A Casa dos Budas Ditosos, sabe-se que muitas coisas na vida acontecem em segredo. O político manipulador, age exatamente com ações que ganham legitimidade no segredo do nosso subconsciente. Ele atua no nosso subconsciente, praticando ações em segredo, através de palavras ambíguas e ações praticadas no escuro.
Manipular é uma atividade mal vista, mas praticada por todos, salvos os néscios e congêneres. Refere-se aqui às manipulações do dia-a-dia, aquelas que não fazem mal a ninguém, mas nos trazem ganhos diversos. Exemplo, um cidadão está com pressa para viajar, lembrou-se que esqueceu de levar uma sacola de bagulho da sua mãe para a casa de praia que ele se dirige, e ela do salão o liga perguntando se ele pegou TODAS as sacolas. Ela responde que sim, e depois quando ela chegar em casa saberá que ficaram a dos bagulhos.
Porém, os políticos manipulam de forma prejudicial. Manipulam a ordem, o desenvolvimento mental das pessoas, manipulam o nosso destino. Durante o processo eleitoral então... a coisa se revela aos olhares mais argutos. Facilmente percebe-se o quão manipuladores da legislação eles se tornam. E nesse momento, sempre aparece dinheiro para tudo, principalmente daqueles que estão no poder.
Grande parte das consciências dos cidadãos não percebem que, os dias que se intercalam de junho a agosto de um ano eleitoral para o poder executivo e legislativo municipal são dias intensos, de uma movimentação monetária sem igual! Pra ser mais claro, são dias onde a circulação de dinheiro nos pobres municípios que ficam distantes da realidade de circulação dos demais dias “normais, sem eleição”.
Nestes dias normais, sem eleição, os municípios convivem diretamente com problemas ligados à essência humana, ligados à vida, como falta de água, seca, falta de alimentação, falta de moradia, desemprego, desigualdade, miséria, experiência cotidiana de viver na ou abaixo da linha de pobreza, degradação do ensino público, péssima saúde pública, entre outros, que não são solucionados, pois, segundo os políticos “falta dinheiro”.
Porém, em período eleitoral o comércio dinamiza, as pessoas começam a adquirir bens, dos mais pobres aos mais ricos, assegurando este desequilíbrio na qualidade e valor dos bens, sendo que os mais ricos ganham dinheiro para comprarem carros, e os mais pobres ganham dinheiro para pagarem contas de água e energia atrasadas, para comprarem comida, colchão, cama, remédios, roupas, celulares, etc.
Nestes dias que a política dissimulada empreende dinamismos maiores nos pobres municípios, Surgem empregos! A prefeitura incha! Parece um balcão de emprego, mas não de pessoas que prestarão serviços públicos, mas de pessoas que farão campanha, votarão e buscarão votos. Muitas vezes a atuação da manipulação é tão escancarada que a arma do emprego não sai de promessa. E o cidadão, já cotidianamente enganado, foi abertamente enganado! Vendeu-se por uma promessa!
Muitas vezes as pessoas falam, o problema é do cidadão, que é corrupto. Mas não é. A origem da corrupção do cidadão é a ignorância, e a perpetuação da ignorância é o fracasso da ação do Estado nas políticas educacionais. É verdade que esse tipo de postura do cidadão vem motivada por muitos outros fatores e a ignorância é também causadora de muitos destes fatores. A necessidade emergencial, a pobreza, a falta de perspectiva, a má índole, o desespero de viver sufocado em um meio que não colabora com a ascensão, entre outros. Mas o político tradicional que usa a política pra se manter no poder enriquecendo a si e à sua família ao invés de usá-la como um instrumento em nome da transformação social e do desenvolvimento coletivo, quer mesmo é que todo este quadro se mantenha para que ele continue no poder sem ter trabalho, sem produzir serviços e bens públicos. Seu único trabalho é manter um nível mínimo de serviço público para que a opinião pública se cale, disseminar este mínimo como “desenvolvimento” através de um gasto excessivo de marketing, e manter seu quadro de funcionários medíocres recebendo dinheiro, uns deles meras migalhas, outros uma grana viva!
Estes funcionários em período eleitoral entrarão em campo de novo, defendendo a manutenção daquela ordem com unhas e dentes, à caça, à procura de eleitores que queiram vender suas dignidades! E aí gira a ciranda da miséria e pobreza dos municípios. Uma ciranda que se alimenta da pobreza e principalmente da ignorância dos cidadãos.
O dinamismo eleitoral acabando, a vitória chegando, a realidade volta, mas os cidadãos não percebem... aquilo para eles foi um sonho, foi bom! Nem percebem que a realidade volta e no começo mais dura do que nunca, pois o período pós eleitoral é de escassez de dinheiro enorme, para que as dívidas incorridas no escuro dos empréstimos e da roubalheira sejam honradas. A partir de outubro do ano eleitoral, a escassez segue até... as proximidades das próximas eleições. Para o político, consciente de que é um abutre da miséria, sabe que terá que pagar algumas dívidas e daí buscar mais dinheiro para se manter no poder. Para os eleitores, felizes com o término eleitoral e seus ganhos advindos da política corrupta, saem sorrindo, felizes com os ganhos durante o processo, e lamentando o fato de que é uma pena não os outros dias cotidianos de suas vidas não serem como aqueles que precedem as eleições.
Se perguntarem sobre a razão de haver tamanha diferença entre os dias normais e aqueles que precedem as eleições, eles não se perguntam. Questionar o motivo de os políticos terem destruído a educação básica, os cursos profissionalizantes, sucateado as universidades públicas e proporem políticas educacionais ridículas, também não é questionado.
E assim a realidade seguirá. Sem perguntas reais/relevantes, mas com respostas falsas. Com a cegueira de uns manipulados contra a esperteza e olhos bem abertos de outros. Com a desfaçatez de uns encenando que fazem o bem contra aqueles acreditam e aplaudem o teatro de seu grupo. Com a ausência quase que absoluta de política pública, contra a presença enganadora do marketing. Com a ira dos membros dos grupos opostos por não se beneficiarem diretamente do gasto público, contra aqueles do grupo beneficiado que fingem acreditar que seu grupo faz o bem pra todos, mas sabendo que seu grupo é bom somente pra ele que é do grupo. E assim a realidade seguirá, e assim os municípios seguem, principalmente no Norte e Nordeste do Brasil, vivendo cotidianamente no atraso.





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